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Um campeonato nacional é uma competição aberta. Dela
participam todos os clubes de uma divisão – primeira, segunda, terceira – ou
série – A, B, C, etc. Depois de consolidado, tem início o processo de ascensão
e rebaixamento dos clubes, dentro das divisões ou séries. Para se chegar ao
campeão, o ideal é que todos joguem contra todos, em dois turnos. No Brasil,
nosso principal campeonato patinou feio durante muitos anos, com fórmulas
esdrúxulas, viradas de mesa, inchaço e por aí vai. Bem ou mal, entretanto,
sempre foi caracterizado e aceito como a principal competição do país. Esse
campeonato, assim descrito e aceito e instaurado oficialmente, teve início no
ano de 1971. Antes disso nunca tivemos um campeonato nacional.
Uma disputa denominada taça ou copa tem características
diferentes de um campeonato. Seus participantes não são todos os clubes de uma
divisão ou série, são clubes que foram previamente qualificados para a disputa,
podendo incluir clubes de diferentes divisões ou séries. Ou seja, ela é
restrita. Essas competições são disputadas por meio de eliminatórias, muitas
vezes simples e diretas, outras vezes com fases de grupos, sempre pequenos –
com 4 participantes na quase totalidade dos casos.
Num campeonato nacional, com sua disputa aberta – e é bom
enfatizar sempre esse ponto – a todos os clubes de uma divisão e somente uma, o
campeão, mesmo que haja fórmulas esdrúxulas, disputa razoável quantidade de
jogos para chegar ao título, enfrentando, se não todos os demais participantes,
boa parte deles. Hoje, o campeão brasileiro, assim como os demais participantes
do torneio, disputa 38 jogos. Em 1989, o Vasco da Gama disputou a metade – 19
jogos. Um número muito baixo, sem dúvida, fruto do modelo que tinha a
competição naquele ano, mas ainda assim bastante superior ao número de partidas
que disputa o campeão de uma copa ou taça.
Numa competição com esse caráter, o número de partidas
disputadas é sempre menor. Na Copa Libertadores, a maior e mais importante copa
que nossos clubes disputam, por exemplo, o campeão – atualmente – disputa 14
partidas, sendo 6 na fase de grupos, outras 6 nas 3 fases eliminatórias e mais
2 partidas na fase final.
Na antiga Taça Brasil, por força das circunstâncias da época
e da organização e estrutura que tinham nosso futebol, tivemos o Santos
conquistando o título duas vezes depois de disputar somente 4 jogos em cada
torneio. Vamos e venhamos, não dá para comparar com a campanha de qualquer
campeão nacional de fato.
Numa das comparações mais absurdas que já vi, dezenas,
talvez centenas de pessoas, tomaram como exemplo de legitimidade como campeão
com pequeno número de jogos, o Uruguai, que venceu a Copa do Mundo de 1930
disputando, também, somente 4 jogos. Até aqui, nenhum problema. Uma taça pode
ser decidida em um só jogo: venceu, levou, ponto final, história escrita, não
se fala mais nisso, apenas celebra-se. A Taça do Brasil, com suas
características próprias, permitiu ao Santos ser pentacampeão com um total de
24 jogos. Isso porque, como time de São Paulo, assim como o representante do
Rio de Janeiro, já entrava na disputa em uma fase mais adiantada. Novamente,
isso nada, absolutamente nada tem a ver com um campeonato nacional e está ótimo
e nada há a reclamar quando falamos em uma taça e não de um campeonato
nacional.
A Taça Brasil era uma competição nacional, coisa, aliás, que
fica clara por seu próprio nome. Mas não era, nunca foi, nunca será, um
Campeonato Brasileiro. Sim, ela apontava o representante brasileiro para a Copa
Libertadores, tal como a Copa do Brasil também aponta. Esse fato por si só não
significa que a competição seja um campeonato nacional. Falando nisso, até a
Copa Sul Americana, agora, também manda seu campeão para a Copa Libertadores.
Não é a presença na Libertadores que define que um time seja ou não o campeão
nacional.
Por motivos diversos, inclusive as distâncias que temos aqui
nesse país-continente e a lentidão ou inexistência de meios de transporte
capazes de viabilizar uma competição esportiva nacional, somando-se isso à
bagunça, à desorganização, à falta de visão e critérios de dirigentes e
autoridades diversas, somente em 1971 tivemos nosso primeiro campeonato
nacional, nosso primeiro campeonato brasileiro.
As competições que existiram antes foram importantes e
legítimas, isso não se discute, disputadas por alguns dos mais fantásticos
times da história do futebol, mas não foram campeonatos brasileiros.
Aqui não se trata de mostrar manchetes de jornais da época
para provar que o campeão da taça foi chamado de campeão brasileiro. Mormente
nos anos sessenta, as manchetes de jornais e revistas tinham a função de atrair
a atenção do passante e levá-lo à compra para ler a matéria com tão
interessante manchete. O fato de manchetes terem chamado vencedores da Taça
Brasil de “campeões brasileiros” não significa, em absoluto, que esses times
tenham sido campeões brasileiros dentro da concepção plena do termo, mas
ajudaram a venda dos jornais e revistas da época nas bancas.
Não se trata de desmerecer times e jogadores do passado,
longe disso. Aliás, é bom que se diga, jogadores que são sempre esquecidos, são
lembrados agora, de forma bastante oportunista, e brevemente estarão esquecidos
novamente. Ou atacados, como se costuma fazer com o maior de todos, Sua
Majestade, frequentemente tratado com deboche, certamente por muitos que agora
dizem ser absurdo que ele não tenha o título de “campeão brasileiro”.
Trata-se, tão somente, de estabelecer as coisas como elas
são: taça ou copa é uma coisa, campeonato nacional é outra, muito diferente. As
duas coexistem, mas uma não pode ser a outra. Se alguém quer que o vencedor de
uma taça seja chamado de campeão nacional, paciência, cada um pode pensar do
jeito que melhor entender, mesmo que vá contra a lógica dos fatos. Se a
confederação, por medida política e rasteira proceder a essa unificação,
paciência, novamente. Será apenas mais um ato prepotente e de cunho meramente
político de seu presidente, coisa que, por sinal, não é novidade. S.Exa.
decidirá sozinho e de forma absoluta, como monarcas pré-Revolução Francesa, sem
consultar ao conjunto de clubes, que nunca são consultados para nada ou, quando
isso ocorre, as cartas já estão marcadas. Nada de novo, portanto. Assim como
nada há de novo na brutal falta de educação de muitas pessoas que se valem da
beleza e da facilidade da internet para despejarem mágoas, frustrações, ódios e
rancores sobre os demais.
Minha intenção com esse novo post é somente esclarecer
alguns pontos que já estavam claros, mas foram deturpados. A função de um
blogueiro não é agradar a gregos ou troianos, é apenas expor à discussão seu
ponto de vista. Espera-se, sempre, que discussão educada, no mínimo.
Bom final de semana a todos.
Comentário do blog
Concordo plenamente com a opinião do autor, Emerson Gonçalves.
Comentário do blog
Concordo plenamente com a opinião do autor, Emerson Gonçalves.
A única coisa que acrescentaria é que assim como ocorreu no
passado, o apoio que a "grande mídia" tem dado à unificação continua com o mesmo
objetivo: vender jornais e revistas.
Podem ter certeza que vai pipocar um monte de edições
especiais, almanaques e de pôsteres de times campeões em mil novecentos e “bolinha”.
Os trechos em destaque foram feitos por este blogueiro.







2 comentários:
Se os titulos a serem unificados fossem do sao paulo com certeza teria validade né.! Hipócritas, invejem os novos soberanos palmeiras e santos.
Leandro,
É uma pena, mas parece que você não entendeu o texto (se é que o leu por inteiro).
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