Nota do blog:
A introdução do texto abaixo é meio longa mas leitura vale a pena para conhecermos melhor a
história do futebol brasileiro.
Reprodução: Olhar Crônico Esportico, globoesporte.com
Hoje existe o photoshop, badalado e usado até além dos
limites do imaginável. Mesmo sem ele, entretanto, os soviéticos durante décadas
modificaram a realidade, tentaram reescrever a história. Por ordem de Stalin,
todas as fotos de grandes momentos da Revolução de Outubro e dos primeiros anos
do regime soviético, em que Trotsky aparecia ao lado de Lênin, foram retocadas,
já que a determinação era clara: deletar Trotsky. Nos textos e livros a tarefa
era bem mais fácil, bastava apagar, queimar ou censurar previamente. Em pleno
quarto final do século XX, nos derradeiros momentos da União Soviética, o
photoshop primitivo, mas eficiente, continuou funcionando: as fotos de
Gorbatchev eram retocadas para eliminar a mancha avermelhada em seu crânio. Entre
outros motivos alegados, um era que parte do povo russo associava aquela mancha
de pele a um sinal do coisa ruim.
Por aqui, nessa Terra de Vera Cruz, é comum vermos e
ouvirmos mestres diversos, sem formação digna de tal título, tentarem
reescrever nossa própria história, qualificando com olhos radicalizados e
deformados de hoje as bandeiras e bandeirantes do passado. E por aí vai e vai
longe.
No futebol também vemos uma tentativa de reescrever a
história, através da tal unificação de títulos nacionais.
Com todo o respeito que merecem os grandes times e craques
do passado e até por isso mesmo, acho que estamos vendo uma grande bobagem,
difícil de ser levada a sério por quem tem um mínimo de conhecimento histórico
e também de futebol.
Para quem não gostou dessa introdução, paciência. É o que
penso e não vou pensar diferente para agradar a quem quer que seja.
A Taça Brasil nunca foi um campeonato nacional. Paulistas e
cariocas entravam na disputa já nas semifinais e dela participavam somente os
campeões estaduais. Vou mais longe: era um torneio que pouco interesse
despertava no torcedor, pelo menos na cidade e no estado de São Paulo. Pequeno
era seu impacto e mesmo palmeirenses e santistas interessavam-se muito mais – e
às vezes tão somente – pelo Campeonato Paulista. Digo isso por ter vivido
aquela época e por ter palmeirenses e santistas em minha família, além de
corintianos e são-paulinos, mas uma vista d’olhos nos arquivos de nossos
jornais mostrará o mesmo quadro. Aliás, tivemos casos de clubes que não a
disputaram por falta de interesse e até mesmo W.O. em 1968, quando o Metropol,
de Santa Catarina, não enfrentou o Botafogo.
Nos títulos de 63 e 65 o Santos disputou quatro partidas em
cada competição.
Quatro!
Na conquista de seu pentacampeonato da Taça, série que foi
quebrada pelo Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes, o time do Santos disputou um
total de 24 partidas. Aliás, essa é a lembrança mais forte, quase única, que
tenho da Taça Brasil. E não pela competição em si, e sim pelo fato de um time
até então pouco conhecido dos torcedores comuns surgir no cenário goleando o
Santos, vencendo-o em dois jogos seguidos. Meu pai era mineiro, mas ele próprio
quase nada conhecia do Cruzeiro naquela época, embora conhecêssemos muito bem o
Tupi, pois grande número de parentes morava em Juiz de Fora, e dois de meus
primos jogaram por essa equipe.
Em cinco anos, em cinco edições da competição, um total de
24 partidas. Apenas para efeito de comparação, o campeão brasileiro – de fato –
que mais “moleza” encontrou, foi o Vasco da Gama, em 1989, que disputou
“somente” 19 partidas para conquistar o título, vencendo o São Paulo no
Morumbi, com gol de Sorato.
Dezenove! E foi o campeão com menor número de partidas
disputadas.
Volto a um ponto em que já toquei: para o torcedor, e também
para a imprensa da época, a Taça Brasil nunca teve o caráter de um campeonato
nacional.
Claro que isso por si só não é fator que justifique isso ou
aquilo, mas dá uma boa ideia do que é uma taça, uma competição com caráter de
copa, e o que é um campeonato nacional de fato.
Como tampouco teve esse caráter o Robertão ou, na verdade, o
Rio/São Paulo um pouco ampliado. Os clubes participavam por convite, não por
direito. E a competição não abrangia todo o Brasil, muito pelo contrário.
Embora já tivesse uma cara mais próxima da de um campeonato nacional, não o
era. Dizer que foi é deturpar a história, simplesmente. O que vai nos levar a
mais uma insanidade: dois campeões brasileiros no mesmo ano, por duas vezes
(Palmeiras e Palmeiras, em 1967, Botafogo e Santos em 1968). Nada mais
tupiniquim, realmente.
O Campeonato Brasileiro começou em 1971.
Esse é o fato.
Não há porque desmerecer o passado tentando reescrevê-lo.
Em tempo: o que ocorreu em 1987 nada tem em comum com o
passado. Tivemos duas competições efetivamente nacionais, com duas organizações
diferentes, uma das quais oficial. E a outra, mesmo não sendo oficial, tem e
teve o respaldo de grande parte da sociedade e do mundo da bola como um
autêntico campeonato brasileiro.
Finalmente, acho estranho a direção de uma confederação
dar-se o direito de mudar a história. Que eu saiba, clubes e federações
estaduais (fazer o que se elas existem?), mas principalmente os clubes, razão
de ser do futebol, não foram consultados a respeito. Não vi nenhuma convocação
de uma assembleia geral para discutir e votar essa proposta.
Não reconheço legitimidade numa decisão de gabinete como
essa, caso ela venha a ser tomada, realmente.
(Lembrando a todos, o que não deveria ser necessário, que
isto é uma opinião, no caso, a minha. Cada um é livre para pensar como melhor
entender e manifestar esse pensamento. Este OCE está, como sempre, aberto ao
debate e à manifestação de opiniões, desde que com um mínimo de educação e sem
ofensas.)








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