Reprodução: Olhar Crônico Esportivo
Assim mesmo, sem acento, bem italiano. Se você preferir, que
seja “Imbróglio”, então, com acento e bem brasileiro. O sentido é o mesmo,
assim como a palavra, com a qual cresci soando nos ouvidos, falada por avós,
pais, tios e tias: bagunça, confusão, desordem, complicação.
Assim se pode definir a atual situação envolvendo as
negociações para os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro a partir
de 2012. E digo a partir, e não para o triênio 2012/2014, dado o imbróglio
geral.
Amigos me perguntam na rua, na livraria, pelo telefone, por
e-mail, assim como leitores, como está a situação e o que vai acontecer. E
minha resposta hoje, como há vários dias, é a mesma:
Sei lá.
Por sinal, vou socorrer-me usando as palavras do presidente
do São Paulo, Juvenal Juvêncio, a respeito disso tudo que está aí, citadas em
matéria do portal GloboEsporte:
“Ainda há muitas incertezas, muitas interrogações (a
respeito da licitação e da disposição de alguns clubes em negociar diretamente
com emissoras). Tem muitos problemas jurídicos. Vamos aguardar a posição dos
clubes”.
A confusão está montada com a participação de duas dezenas
de clubes de futebol, uma entidade que os reúne ou reunia ou reúne em parte,
pelo menos três, mas possível ou provavelmente 5 redes de televisão de sinal
aberto, a presença não declarada da confederação responsável pelo futebol no
Brasil e, por último, mas não menos importante, a presença intrusa de um órgão
do Estado. Bom, isso é o que me lembro, mas não ficarei surpreso se tiver
deixado entidades outras de fora.
O dia de ontem amanheceu com grande expectativa. Na véspera,
na tarde da quinta-feira, conversando com pessoa da assessoria do Clube dos 13,
perguntei a respeito e nada ouvi de conclusivo. Já meio escolado nesses processos,
perguntei se envelopes já haviam sido entregues, usando o plural
propositalmente, e a resposta foi positiva, igualmente no plural. Não acreditei
e preferi não comentar o assunto. Na verdade, nada havia e na abertura da
reunião apenas a Rede TV cumpriu sua parte e entregou um envelope com uma
proposta. Segundo seu diretor presente no evento de abertura, se houvesse
alguma outra concorrente ele entregaria outro envelope, com proposta de valor
superior – segundo o Juca Kfouri postou em seu blog.
Record refuga
Uma vez mais a Rede Record agitou, agitou e na hora agá
refugou. Já tinha feito o mesmo em 2008, na licitação para o triênio 2009/2011,
quando, à última hora anunciou que não participaria da licitação por não
concordar com a clausula de preferência da Rede Globo. Ora, a cláusula lá
estava há muitos anos e é prática corriqueira em contratos comerciais e só
existe quando atende aos interesses das duas partes envolvidas. Se houvesse, de
fato, a disposição de disputar os direitos do futebol, o certo teria sido
apresentar a proposta, que já na época era comentada como sendo de “1 bilhão”,
e deixar que a concorrente se complicasse para empatar e levar, se fosse o
caso.
Agora, novamente a mesma coisa: depois de muita agitação, o
refugo em cima da hora, para consternação, e isso eu lamentei profundamente, do
presidente do Clube dos 13, Fabio Koff. Foi uma postura de absoluta
deselegância e mau gosto. Sim, eu ainda acredito que um mínimo de elegância e
bom gosto é necessário nas relações humanas. Dessa vez, a desculpa é que a
licitação tinha “cartas marcadas”. Ora,
pílulas, de novo a mesma coisa! Algum presidente de clube, conhecendo a
“fortaleza moral” de que são constituídos, resistiria a uma proposta da ordem
de 700 milhões ou mesmo 800 milhões de reais por temporada, como foi aventado?
Então, uma vez mais, presenciamos um blefe.
Rede TV vence
A proposta da Rede TV é surpreendente, ao menos para mim.
Realmente, não esperava por ela e achava a disputa limitada às duas maiores
redes, hoje.
A oferta de 516 milhões de reais por temporada, com
antecipação de 20% do total do contrato – 309,6 milhões – é altamente tentadora
e torna possível que o total do pacote licitado atinja a cifra fabulosa de 1
bilhão de reais por temporada.
Todavia, ainda há muito a ser discutido e explicado. A
vencedora da licitação tem, a partir de ontem, 30 dias para a apresentação de
garantias bancárias para todo o pacote e, segundo matéria da Folha de S.Paulo
de hoje, a rede precisa, ainda, reunir os patrocínios necessários para honrar o
compromisso. Segundo Juca Kfouri, que vem divulgando algumas informações sobre
o processo em seu blog e em sua coluna na Folha, o Bradesco e uma empresa
multinacional estariam por trás da proposta apresentada. Como podemos perceber,
contradições e incertezas é o que menos falta, pelo contrário.
Um problema grave para o caso de confirmação da vitória da
Rede TV é o fato dela ter menor
cobertura entre as grandes redes de televisão. Enquanto Globo e Record cobrem
todo o território nacional, com mais de 100 afiliadas cada, a Rede TV tem
apenas 40 emissoras em sua programação, deixando parte do país fora de seu
alcance. Esse fato por si só complica ainda mais a questão comercial, não só
diretamente, pela dificuldade em poder cobrar preços que viabilizem a proposta,
como também indiretamente, pois os clubes e seus patrocinadores teriam menos
exposição e perdas em suas receitas paralelas, fortemente dependentes da
exposição na televisão – fator de primordial importância que sempre pesou a
favor da Globo e não foi devidamente equacionado pela direção do Clube dos 13,
na minha opinião, como já expus anteriormente.
Negociações paralelas
Globo e Record conversam com os clubes, individualmente.
Certo?
Errado?
Não vem ao caso, cada uma está defendendo seu negócio e
puxando a brasa para a sua sardinha.
A defesa dos interesses do futebol não é tarefa de uma
emissora de televisão ou de um portal de internet ou de um salvador da pátria,
qualquer que seja.
É tarefa dos clubes, que estão longe de fazê-la.
É tarefa que só conseguirá ser levada a cabo com união e
identidade de propósitos. Nesse sentido, a ação de Andrés Sanches e outros
presidentes, inclusive Patrícia Amorim, foi um tiro nos próprios pés.
Conseguiram destruir, praticamente, o pouco que havia de união e identidade de
propósitos. Fizeram o jogo político de quem tem tudo a ganhar com a desunião
dos clubes, que é, justamente, o presidente da confederação.
Rede Globo? Ora, ela é uma organização comercial e é forte.
Disse-me Marcelo Portugal Gouvêa, ex-presidente do São Paulo e infelizmente
falecido, que detestava negociar com a Globo e adorava fechar negócio com a
Globo. Porque a disputa era e é sempre muito dura, mas uma vez concretizado um
acerto, nada mais havia e há a temer e ele, como presidente do clube, tinha
absoluta tranquilidade em relação à correção com que o acordo seria cumprido em
todos os pontos.
Marcelo defendia a disputa entre os clubes dentro do campo e
a união fora dele, pois sabia que só com uma posição muito forte poderia fazer
frente e negociar bem com organizações igualmente fortes, como a Globo, ou até
mais fortes que os clubes, por motivos totalmente errados, como a CBF.
Sanches, Patrícia & Cia. atiraram em seus pés,
destruíram a união e tornaram a todos presas mais fáceis, não da Globo ou da
Record ou da Rede TV, empresas cujos interesses, ao fim e ao cabo, são
coincidentes com os interesses dos clubes, mas presas fáceis e indefesas da
confederação, que seguirá mantendo seu absoluto domínio sobre os clubes.
Mataram, na prática, a ideia de uma liga que ou será
independente, autônoma, soberana, como são as ligas europeias, ou não passará
de mero departamento, mais uma seção irrelevante da confederação.
É isso que temos hoje, ou melhor, nada temos, pois nunca
antes nesse país (cruz credo) como agora, o futuro realmente a Deus pertence,
como dizia um ministro da ditadura de não saudosa memória, tanto ele como o
regime a que servia.
Esse é o retrato do futebol brasileiro.








Um comentário:
estao matando o futebol brasileiro. daqui a alguns anos, serão 3 ou 4 times duspanto título e o resto todo sofrendo pra ganhar um torneio regional aqui, outro ali.
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