Reprodução: ESPN.com.br
(Matéria originalmente publicada na edição de novembro da revista ESPN)
A chegada de Paulo César Carpegiani, a dez rodadas do fim do Brasileiro,
foi um ato de desespero da diretoria do São Paulo para salvar um ano em
que seu estilo de trabalho resultou em fracassos. Desespero, mas com os
pés no chão. Carpegiani chegou ganhando R$ 300 mil mensais – ele paga o
salário de Rodrigo, seu filho e auxiliar –, bem menos do que técnicos
de ponta.
Ao contrário do que poderia sugerir o apelido “Professor Pardal”, que
adquiriu em sua primeira passagem pelo clube em 1999, Carpegiani não
optou por mudanças estratégicas agressivas. No caminho oposto, escalou
quatro jogadores na defesa, dois volantes e dois meias. Deu força a
Dagoberto, que era reserva com Sergio Baresi, e o são-paulino pôde ver
em campo um time no ataque, com Lucas, Fernandinho, Dagoberto e Ricardo
Oliveira. Foi assim contra o Santos, com uma vitória por 4 a 3. Ela,
somada às anteriores – 2 a 0 no Vitória e 3 a 2 no Prudente – e à
devolução da vaga à Libertadores para o quarto melhor do Brasileiro –,
reavivou a esperança de o clube ter o ano salvo, tecnicamente falando.
Desde 2003 o São Paulo não fica de fora do torneio continental.
Antes
disso, o ano de 2010, para os são-paulinos, estava sendo marcado como
aquele em que a diretoria fez duas apostas muito grandes, com uma única
carta, e perdeu feio. O time fica sem títulos pelo segundo ano seguido. O
clube, sem a chance de ter o Morumbi como estádio paulistano na Copa do
Mundo. A crônica de derrotas mostra um clube cheio de si, com atitudes
arrogantes, que não conseguiu prever o movimento dos adversários. Vamos
começar pelo futebol.
Para montar seu time fracassado, Juvenal
Juvêncio – o nome verdadeiro quando se fala em diretoria do São Paulo –
apostou como sempre em contratações a custo zero, com a exceção de
Cléber Santana, por quem pagou US$ 1,5 milhão por 50% dos direitos. Como
outros clubes começaram a também procurar jogadores com contrato no fim
e alguns, como o Inter, resolveram gastar em revelações como Giuliano, a
concorrência ficou mais dura. Em janeiro, a diretoria decepcionou, por
falta de ousadia, ao apresentar seus primeiros seis contratados: Xandão,
Fernandinho, Carlinhos Paraíba, Léo Lima, André Luís e Marcelinho
Paraíba. Os três últimos já deixaram o clube. Os outros não conseguiram
ser titulares.
O seguinte foi Rodrigo Souto, em troca com Arouca,
hoje um dos mais importantes jogadores do Santos. E Cléber Santana, uma
decepção. Depois, vieram Alex Silva, titularíssimo; Cicinho, que,
contundido, já voltou à Roma; Fernandão, que poderia ter chegado seis
meses antes, se o time resolvesse gastar; e Ricardo Oliveira, forçando a
liberação de Washington, que teve seu contrato renovado no início do
ano. Ricardo está emprestado até dezembro e é difícil continuar no
clube.
Com eles, o São Paulo foi semifinalista do Paulista e da
Libertadores. Sem jogar bem. Com tanta gente chegando e saindo – em 2009
o clube havia contratado 14 jogadores –, foi difícil ter entrosamento,
conjunto, bom futebol e títulos.
Além de tentar montar um time
sem gastar, Juvenal resolveu aceitar a briga com Ricardo Teixeira,
presidente da CBF. E fez parte da chapa de Fábio Koff para a presidência
do Clube dos 13, enfrentando Kleber Leite, apoiado por Ricardo Teixeira
e Andrés Sanchez, presidente do Corinthians. Terminada a eleição, a
Fifa, ligada a Teixeira, exigiu reformas de R$ 600 milhões para adequar o
Morumbi à Copa. O clube disse que não teria condição de fazer isso e
apontou um novo projeto, com gastos de R$ 250 milhões, também recusado.
Juvenal não esperava que a aproximação de Andrés e Ricardo Teixeira
fosse tão grande a ponto de a Fifa aceitar um estádio que ainda é um
projeto. Andrés aposta que em janeiro as obras começam.
A
Juvenal restou confiar novamente nas categorias de base. Espera
revelações para o time de 2011. E está investindo em arquibancadas, um
novo Reffis e um hotel para o Centro de Formação de Atletas de Cotia.
Talvez
queira ver seu nome marcado na história do clube como um homem de
visão, que pensou no futuro. Talvez esteja preparando nova jogada para
abril, tentando uma brecha para se candidatar novamente à presidência do
clube. O estatuto diz que só é permitida uma reeleição, mas, como foi
mudado para que a duração do mandato passasse de dois para três anos,
Juvenal pode argumentar que essa será, se houver, sua primeira
reeleição.
No século 21, o São Paulo, sempre marcado por ser um
clube democrático, não sabe nem se o velho caudilho pode ser candidato
novamente. Uma indefinição que combina com quem não ganha título há dois
anos e vê seu estádio, motivo de orgulho, sendo ultrapassado por novos
projetos. Os tempos mudaram no Morumbi.
De Baresi a Carpegiani
– Bom dia, pessoal!
A resposta veio com murmúrios, cabeças balançando
assertivamente e um ou outro bom-dia, em tom bem baixo.
– Pessoal, eu falei bom dia!
Tentou novamente Sérgio Baresi, esperando um BOM-DIAAA
daqueles com letras maiúsculas e repetidas. Não conseguiu. Esse bom-dia,
uníssono e em voz alta, só apareceu nas conversas seguintes, de jogador com
jogador, com forte dose de ironia.
Para muitos dos titulares do São Paulo, Sergio Baresi nunca
passou, apesar de diversas entrevistas de Juvenal Juvêncio, do técnico dos
juniores que foi tomar conta do time até a chegada de um técnico de verdade.
Para eles, e também para membros da comissão técnica, Baresi representava o fim
de 2010. A renúncia à luta por alguma conquista significativa, como a presença
na Libertadores-2011. “Estava acostumado a disputar Libertadores e o clube
começou a pensar pequeno, contentando-se com a Copa do Brasil”, disse um deles.
As atitudes de Baresi provocaram desgaste com a comissão
técnica. Ele “chegou chegando”, como se diz na gíria. Crente que era o homem de
Juvenal, tentou se impor desde o início. Não conversava com Milton Cruz e deu
força a Nelson, seu ex-companheiro (e também de Rogério Ceni) na conquista da
Copa São Paulo de 1993. Formado em Educação Física e com pós-graduação em
Psicologia do Esporte, implantou métodos pouco usuais. Jogadores recebiam um
DVD com os segredos do adversário e uma apostila que deveria ser estudada.
Tudo poderia dar certo se, após a derrota por 3 a 1 para o
Inter, Baresi não dissesse que a postura ofensiva dos gaúchos o havia
surpreendido. “Para que apostila? Para que DVD?”, era o que mais se ouvia. A
escalação de Rodrigo Souto – um volante lento – como lateral-direito também
contribuiu para que os métodos de Baresi passassem a ser mais contestados.
“Pode ser bom para revelar jogadores, mas não para montar um time”, foi o que
chegou aos ouvidos de Juvenal Juvêncio.
O time não jogava bem. Não vencia. E apenas Casemiro e Lucas
haviam sido efetivados como titulares. E trazer jogadores da base para o time
titular era uma das missões passadas por Juvenal a Baresi. Convencido da
necessidade de mudança, o presidente começou a procurar um técnico bom e
barato. Recebeu, de dentro do clube, informações de que, sob esses aspectos,
ninguém seria melhor do que Paulo César Carpegiani. E trocou um técnico que
recebia R$ 10 mil por um com salário de R$ 300 mil (Carpegiani paga seu próprio
auxiliar, o filho Rodrigo). Quase 30 vezes mais caro, mas muito menos do que
técnicos de ponta como Muricy, Luxemburgo, Dorival Júnior e Felipão. Foram duas
vitórias nos dois primeiros jogos. E 2010 voltou a existir para o São Paulo.








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